quarta-feira, 15 de abril de 2026

Encontro Institucional para fortalecer a pesquisa e a Formação docente em Relações étnico-raciais

O encontro realizado no dia 13 de abril contou com a participação da coordenação da Comissão de Relações Étnico-Raciais do município de Itabuna eda coordenadora do programa LEEI no município. Esse momento constituiu um marco importante no desenvolvimento desta pesquisa.

A presença da minha orientadora no diálogo institucional contribuiu para o fortalecimento da segurança metodológica do estudo e reafirmou seu compromisso ético e político. Na ocasião, o projeto foi apresentado e houve escuta atenta por parte das representantes institucionais, evidenciando a articulação entre a pesquisa acadêmica e as ações formativas desenvolvidas na rede municipal.

A assinatura do Termo de Anuência representou não apenas uma etapa formal do processo, mas também o reconhecimento da relevância social e educacional da investigação, especialmente no campo das relações étnico-raciais na Educação Infantil. Esse momento indica a abertura para o desenvolvimento de ações formativas voltadas ao fortalecimento de práticas pedagógicas antirracistas.

Destaca-se ainda o interesse institucional em acompanhar os desdobramentos da pesquisa e conhecer o produto educacional em construção, o que reforça o potencial de contribuição do estudo para a formação docente no âmbito do LEEI e da rede municipal de ensino.

O registro deste encontro evidencia o caráter coletivo da pesquisa e sua construção em diálogo com diferentes sujeitos institucionais. Trata-se de um movimento que articula  Universidade e sistema educacional em torno do compromisso com uma educação que valorize as identidades e promova a equidade racial desde a infância.

Equipe de Coordenação Pro-LEEI e Comissão de Relações Étnico Raciais do Município 


domingo, 30 de novembro de 2025

30 de novembro: Encerrando o mês, mas não a luta

Hoje é 30 de novembro, e encerro este mês com um misto de realização e inquietação. Realização porque, graças ao Dia da Consciência Negra, conseguimos finalmente incluir em nosso planejamento livros e discussões que deveriam estar presentes o ano inteiro: histórias afrocentradas, protagonizadas por personagens negros, carregadas de identidade, beleza e potência.

Mas inquietação porque isso só acontece em novembro.

Ao longo deste mês, trabalhamos com livros nos quais as crianças puderam ver meninas e meninos negros ocupando lugares centrais, vivendo suas narrativas, sendo sujeitos de suas próprias histórias. Vivenciamos diálogos importantes, abrimos brechas para conversar sobre cor, cabelo, pertencimento, representação. Mas não posso deixar de me perguntar:

Será mesmo que esse trabalho cabe apenas em novembro?

Em uma das rodas de conversa, ouvi de uma criança que “a África é cheia de crianças sem mãe e sem ter o que comer”. Essa fala, tão pequena e tão profunda, revela muito mais que um simples equívoco: revela um imaginário colonial que ainda vive dentro das nossas escolas.

A criança não sabe que a África é um continente.

Não sabe o tamanho, a diversidade, a riqueza cultural.

Não sabe porque ninguém ensinou.


E aí eu pergunto:

Como é possível desconstruir estigmas históricos, atravessados por racismo e desinformação, se limitamos essa discussão a um único mês do ano?

Como ajudar nossas crianças a construírem uma visão ampla, real, plural e digna sobre o continente africano e sobre si mesmas se essa conversa começa e termina em novembro?

A infância é atravessada por perguntas urgentes. Pelas vivências que carregam significado. Pelas narrativas que constroem identidade. E se a escola não se faz presente nessas construções todos os meses, o silêncio se encarrega de preencher o espaço — e o silêncio, quando o assunto é raça, quase sempre mantém a desigualdade intacta.

Hoje, encerrando novembro, eu deixo registrado aqui no meu blog:

O trabalho de educação antirracista não começou no dia 20.

E também não termina hoje.

Que dezembro, janeiro, fevereiro e todos os outros meses nos lembrem que nossas crianças merecem histórias, práticas e olhares que afirmem quem elas são e quem podem ser sem esperar uma data no calendário para isso acontecer.


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Quando o brincar ensina caminhos: a Amarelinha Africana e o Provérbio 22:6

Na última sexta-feira, vivi uma daquelas cenas que marcam o coração e reafirmam o sentido de ser professora. Uma colega ensinou, com muito entusiasmo, a Amarelinha Africana para as crianças das turmas de 4 e 5 anos. Confesso que, no início, achei que elas talvez não conseguiriam realizar todos os movimentos, acompanhar o ritmo e cantar ao mesmo tempo. Mas o que aconteceu depois foi surpreendente.

Durante o intervalo, quando a música já havia cessado, as lancheiras estavam guardadas e o pátio parecia silencioso, uma menina voltou espontaneamente ao espaço da brincadeira. E começou a pular sozinha, com os passinhos firmes e o corpo leve, cantando baixinho a mesma canção da atividade anterior. Brincava com a cadência da música que agora vivia dentro dela, como se o som estivesse guardado em sua memória e no corpo.

Foi nesse instante que me veio à mente o Provérbio 22:6:

“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.”

Percebi que aquele versículo não se refere apenas ao ensino moral ou religioso, mas também ao ato de educar com sentido, com afeto e com cultura. Aquela menina estava vivendo o que aprendeu, experimentando o aprendizado como algo que não se apaga, que pulsa.

E então, quando percebeu que eu a observava de longe, veio correndo e me abraçou, feliz, perguntando se eu tinha visto o quanto ela havia acertado. Eu sorri e confirmei com o coração cheio. Aquele abraço foi o selo de que a aprendizagem pela brincadeira é uma das formas mais puras de transmitir conhecimento e identidade.

A Amarelinha Africana foi muito mais do que uma brincadeira. Foi um caminho de memória, ancestralidade e pertencimento. E, como diz o provérbio, o que é ensinado com amor e propósito, permanece.

sábado, 18 de outubro de 2025

Entre o chão do CMEI e as Travessias da Pesquisa: reflexões sobre a Semana das Crianças e o Novembro Negro

 


A Semana das Crianças deste ano foi marcada por muitas descobertas, afetos e também por tensionamentos que revelam o quanto a temática das relações étnico-raciais ainda precisa ser tratada com urgência e sensibilidade no espaço da educação infantil. Embora eu não tenha feito registros no blog durante esse período, no chão da escola tudo tem acontecido de maneira muito singular. As atividades e conversas que emergem no cotidiano mostram o quanto a literatura infantil afrocentrada tem se tornado um campo fértil de formação e possibilidade para um real transformação dentro do CMEI.

Ao longo desta semana, percebi o quanto essa temática é importante no contexto em que atuo. Em meio às trocas e vivências, ouvi falas e situações inimagináveis, mas que revelam como o racismo cotidiano se manifesta de formas sutis e estruturais. Algumas professoras descobriram que, além da minha colega Marcela, eu também sou mestranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Étnico-Raciais. Isso gerou estranhamentos, sobretudo porque, por muito tempo, apenas Marcela, uma mulher preta e retinta, ocupava esse lugar de referência acadêmica na unidade. Hoje, somos duas professoras que buscam construir um olhar científico e político sobre as problemáticas que atravessam o dia a dia da creche, e isso tem provocado novas reflexões e desconfortos necessários.

Estamos organizando juntas uma ação que ocorrerá no dia 4 de novembro, como parte do programa Novembro Negro 2025, promovido pela Secretaria Municipal de Educação. Apesar de estarmos conduzindo todo o planejamento, os convites e a articulação das atividades sem o apoio da gestão, fomos surpreendidas quando uma das coordenadoras solicitou que, no documento oficial, constasse o nome “Equipe Gestora” como responsável. Essa situação nos fez refletir sobre o apagamento e a disputa de espaços simbólicos dentro das instituições, algo que Djamila Ribeiro (2019) chama de lugar de fala: o reconhecimento das vozes que historicamente foram silenciadas e que agora reivindicam legitimidade no espaço público e educacional.

Essa mesma coordenadora e uma outra, durante a apresentação do projeto, expressaram falas marcadamente racistas e de intolerância religiosa. Diante disso, senti-me sem reação imediata, ainda tateando os limites entre o posicionamento político e o enfrentamento pedagógico, pois compreendo que estou em um processo de inserção nessa temática dentro do CMEI. No entanto, como lembra Conceição Evaristo (2003), “nossas escrevivências não podem ser lidas como histórias de dor, mas de resistência”. Cada situação como essa reforça o compromisso de continuar escrevendo, formando e resistindo a partir do chão da escola.

Durante o planejamento da ação, outro episódio nos atravessou profundamente: o filho de Marcela, aluno do segundo ano do ensino fundamental, chegou até nós contando que foi chamado de “preto” de forma ofensiva. Ele dizia, em prantos, que iria “descontar” batendo no colega. Esse relato evidencia o quanto o racismo já está naturalizado nas infâncias e o quanto é urgente abordarmos o tema desde a educação infantil. É nesse espaço, como nos lembra Nilma Lino Gomes (2017), que se formam as primeiras percepções de si e do outro, e por isso a escola precisa ser um território de identidade, pertencimento e acolhimento.

Nosso projeto para o Novembro Negro busca exatamente isso: ampliar o diálogo entre escola e comunidade. Convidamos uma empreendedora negra para conversar com as mulheres da comunidade sobre empreendedorismo e autonomia financeira, o Colegiado de Enfermagem para tratar da saúde da população negra, e uma professora mestre premiada nacionalmente, cujo trabalho aborda as literaturas e infâncias negras na educação do campo. Cada presença é pensada como um gesto político e pedagógico de valorização das vozes negras que constroem saberes em múltiplos espaços.

Apesar de todo o entusiasmo, enfrentamos resistência da equipe gestora quanto à participação conjunta de pais e alunos na ação formativa. A justificativa foi de que isso “dispersaria a atenção dos responsáveis” e “poderia ser um desrespeito aos convidados”. Tal posicionamento revela como ainda há uma compreensão limitada sobre o caráter formativo e comunitário das ações antirracistas. Como define a Lei 10.639/2003, alterada pela Lei 11.645/2008, o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena é obrigatório em todas as escolas, não uma escolha ou preferência da gestão. A Resolução CNE/CP nº 01/2004 e o Parecer CNE/CP nº 03/2004 reforçam que essas práticas devem permear todo o currículo, incluindo o diálogo com as famílias e a comunidade.

A experiência vivida nesta Semana das Crianças e nas articulações para o Novembro Negro reafirma que a pesquisa-formação e o trabalho pedagógico antirracista não se separam. Ambos são feitos de travessias, enfrentamentos e reconstruções. No chão do CMEI, entre risadas infantis e resistências adultas, seguimos reinventando possibilidades de uma educação que, como diz bell hooks (2013), seja “um ato de liberdade”.

domingo, 7 de setembro de 2025

Quando o silêncio pesa mais que a fala

Peço licença para fazer um desabafo sobre um episódio que ocorreu está semana e dizer que a escola, tantas vezes vista como espaço de igualdade, também carrega em seus corredores as marcas das relações de poder que atravessam a sociedade. O que acontece fora de seus muros se infiltra em suas salas, nos olhares, nas escolhas, na atenção doada e até nos silêncios.

Há dores que são acolhidas com mais ternura, lágrimas que recebem mais espaço, sentimentos que encontram mais escuta. Mas há outras dores que parecem sempre caber em segundo plano, como se não fossem legítimas, como se não merecessem tal cuidado. E, quase sempre, esse “outro plano” é ocupado por corpos de pele mais escura.

O racismo estrutural também se manifesta assim: não apenas em palavras duras ou atos explícitos, mas naquilo que se repete de forma sutil, no modo como uns têm seus sofrimentos reconhecidos e validados e outros são constantemente invisibilizados. É nessa naturalização das diferenças de tratamento que mora a violência silenciosa, porém persistente.

Como aponta Florestan Fernandes, “o racismo não é apenas uma atitude individual, mas uma estrutura social que atravessa as instituições e define quem ocupa os espaços de poder e visibilidade” (FERNANDES, 1976, p. 27). Essa reflexão dialoga diretamente com a formação docente e a construção de identidades na escola. Precisamos questionar: quais vozes estamos acostumados a escutar? Quais histórias escolhemos legitimar? Quem pode ocupar o centro e quem é empurrado para a margem? Isso vale para os educadores de uma instituição chamada escola.

Se queremos construir uma educação verdadeiramente antirracista, precisamos aprender a enxergar além da superfície. Precisamos reconhecer que, muitas vezes, o que parece apenas cuidado ou empatia pode, na verdade, ser privilégio. E que quando a escola legitima uns e silencia outros, ela deixa de ser espaço de equidade para se tornar reflexo das injustiças que juramos combater.



Referência:


FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1976.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

A força de Vera e a importância da representatividade positiva

Recentemente, tivemos uma experiência muito significativa na escola com o livro Na venda de Vera, escrito por Hebe Coimbra e ilustrado por Graça Lima. Encontrado guardado em nosso acervo, esse livro se revelou uma surpresa maravilhosa.

A personagem principal é Dona Vera, uma mulher negra que comanda seu comércio. O enredo não gira em torno da sua cor de pele ou de questões raciais, mas da rotina de seu trabalho, de sua força e da forma como ela organiza e conduz sua venda. Isso é extremamente potente, porque coloca uma mulher preta como protagonista de uma história em que sua identidade é construída de forma positiva, associada à competência, ao empreendedorismo e ao cotidiano.

As crianças se encantaram com a narrativa. O mais interessante é que elas não se detiveram à raça da personagem, mas sim ao que ela fazia. Essa naturalização é essencial: mostrar personagens negros vivendo histórias comuns, diversas e inspiradoras contribui muito para a construção de identidades mais seguras e saudáveis.

É importante lembrarmos que a literatura infantil antirracista não precisa se limitar a livros que falem “sobre racismo” ou que coloquem a questão negra como centro do enredo. Precisamos também de livros que apresentem personagens negros em diferentes papéis e contextos, de forma natural, sem estereótipos, permitindo que todas as crianças se identifiquem e percebam a diversidade como algo cotidiano.

Na venda de Vera é um belo exemplo de como a representatividade positiva, pode transformar o olhar das crianças e abrir novas possibilidades de imaginação e pertencimento. Para conhecer e comprar a história, Clique aqui.

domingo, 24 de agosto de 2025

A representatividade nos livros infantis: para além da presença simbólica

 Muitas vezes, quando falamos em diversidade na literatura infantil, temos a ideia de que “basta” escolher um livro que tenha uma personagem negra. Mas será que isso é suficiente? A verdade é que não. Enquanto educadores, precisamos ter muito cuidado ao selecionar as leituras que levaremos para a sala de aula, porque nem todo livro que coloca uma criança negra como protagonista traz, de fato, sua  representatividade.

Representatividade não é apenas estar presente na narrativa do livro escolhido. Representatividade é estar ali de forma digna, positiva, potente, sem cair em estereótipos ou reforçar padrões que historicamente foram usados para inferiorizar pessoas negras.

Essa reflexão, inclusive, me atravessou de forma ainda mais profunda, quando assisti a um vídeo do professor Allan no Instagram, no qual ele problematizava justamente obras como O Cabelo de Lelê, Menina Bonita do Laço de Fita, entre outros. Esses livros, apesar de muito difundidos nas escolas, ainda carregam elementos estereotipados. No caso do segundo, por exemplo, a beleza da menina negra é narrada a partir do olhar do outro, não de sua própria subjetividade, o que reforça um imaginário de exotização, até porque dialoga com um coelho.

Essa questão toca também no próprio nome deste blog: Leituras de Lelê. O título surgiu a partir de uma situação vivida na escola, quando a proposta inicial era comemorar o Dia da Consciência Negra (20 de novembro) como “Dia do Cabelo Maluco”. Diante desse equívoco, O Cabelo de Lelê foi a única alternativa encontrada para seguir tratando do tema da identidade e dos cabelos. Mas reconheço que, ainda assim, a obra pode trazer armadilhas estereotipadas que precisamos discutir criticamente.

Outro exemplo muito claro de literatura que carrega racismo é a de Monteiro Lobato. Sua produção, especialmente em livros como os do Sítio do Pica-Pau Amarelo, expressa o racismo de sua época e cristaliza estigmas em personagens como Tia Nastácia. Embora algumas edições tenham sido reescritas ou suavizadas, ainda circulam versões que mantêm os traços originais, expondo crianças a narrativas abertamente racistas. Esse é um caso emblemático de como a literatura, mesmo quando considerada “clássica”, pode reforçar preconceitos e precisa ser lida com muito cuidado.

Portanto, não basta termos personagens negros presentes nas histórias. O que precisamos é de narrativas que construam representações afirmativas, múltiplas e potentes, que permitam que crianças negras se vejam como protagonistas em diferentes papéis: inventores, heróis, cientistas, reis e rainhas, artistas, sujeitos de possibilidades infinitas.

Se nosso compromisso é com uma educação antirracista, cabe a nós educadores olhar criticamente para os livros que escolhemos. Precisamos nos perguntar: essa leitura contribui para fortalecer a identidade e a autoestima das crianças, ou apenas reforça estigmas do passado? Nem toda presença é representatividade. E cada história lida em sala de aula deve ser uma oportunidade de construção de orgulho, dignidade e potência.


Sugestões de livros com representatividade afirmativa

Amoras (Emicida)

O mundo no Black Power de Tayó (Kiusam de Oliveira)

Sulwe (Lupita Nyong’o)

Omo-Oba: Histórias de princesas (Kiusam de Oliveira)

Betina (Nilma Lino Gomes)

As tranças de Bintou (Sylviane A. Diouf)

Essas obras apresentam personagens negros em narrativas potentes, que fogem dos estereótipos e fortalecem a identidade e a autoestima de nossas crianças.


Segue o vídeo inspiração desta postagem 

Vídeo inspiração

Representatividade é Urgente: O que não estava na toalha de livros

Encontro Institucional para fortalecer a pesquisa e a Formação docente em Relações étnico-raciais

O encontro realizado no dia 13 de abril contou com a participação da coordenação da Comissão de Relações Étnico-Raciais do município de Itab...