domingo, 30 de novembro de 2025

30 de novembro: Encerrando o mês, mas não a luta

Hoje é 30 de novembro, e encerro este mês com um misto de realização e inquietação. Realização porque, graças ao Dia da Consciência Negra, conseguimos finalmente incluir em nosso planejamento livros e discussões que deveriam estar presentes o ano inteiro: histórias afrocentradas, protagonizadas por personagens negros, carregadas de identidade, beleza e potência.

Mas inquietação porque isso só acontece em novembro.

Ao longo deste mês, trabalhamos com livros nos quais as crianças puderam ver meninas e meninos negros ocupando lugares centrais, vivendo suas narrativas, sendo sujeitos de suas próprias histórias. Vivenciamos diálogos importantes, abrimos brechas para conversar sobre cor, cabelo, pertencimento, representação. Mas não posso deixar de me perguntar:

Será mesmo que esse trabalho cabe apenas em novembro?

Em uma das rodas de conversa, ouvi de uma criança que “a África é cheia de crianças sem mãe e sem ter o que comer”. Essa fala, tão pequena e tão profunda, revela muito mais que um simples equívoco: revela um imaginário colonial que ainda vive dentro das nossas escolas.

A criança não sabe que a África é um continente.

Não sabe o tamanho, a diversidade, a riqueza cultural.

Não sabe porque ninguém ensinou.


E aí eu pergunto:

Como é possível desconstruir estigmas históricos, atravessados por racismo e desinformação, se limitamos essa discussão a um único mês do ano?

Como ajudar nossas crianças a construírem uma visão ampla, real, plural e digna sobre o continente africano e sobre si mesmas se essa conversa começa e termina em novembro?

A infância é atravessada por perguntas urgentes. Pelas vivências que carregam significado. Pelas narrativas que constroem identidade. E se a escola não se faz presente nessas construções todos os meses, o silêncio se encarrega de preencher o espaço — e o silêncio, quando o assunto é raça, quase sempre mantém a desigualdade intacta.

Hoje, encerrando novembro, eu deixo registrado aqui no meu blog:

O trabalho de educação antirracista não começou no dia 20.

E também não termina hoje.

Que dezembro, janeiro, fevereiro e todos os outros meses nos lembrem que nossas crianças merecem histórias, práticas e olhares que afirmem quem elas são e quem podem ser sem esperar uma data no calendário para isso acontecer.


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