A Semana das Crianças deste ano foi marcada por muitas descobertas, afetos e também por tensionamentos que revelam o quanto a temática das relações étnico-raciais ainda precisa ser tratada com urgência e sensibilidade no espaço da educação infantil. Embora eu não tenha feito registros no blog durante esse período, no chão da escola tudo tem acontecido de maneira muito singular. As atividades e conversas que emergem no cotidiano mostram o quanto a literatura infantil afrocentrada tem se tornado um campo fértil de formação e possibilidade para um real transformação dentro do CMEI.
Ao longo desta semana, percebi o quanto essa temática é importante no contexto em que atuo. Em meio às trocas e vivências, ouvi falas e situações inimagináveis, mas que revelam como o racismo cotidiano se manifesta de formas sutis e estruturais. Algumas professoras descobriram que, além da minha colega Marcela, eu também sou mestranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Étnico-Raciais. Isso gerou estranhamentos, sobretudo porque, por muito tempo, apenas Marcela, uma mulher preta e retinta, ocupava esse lugar de referência acadêmica na unidade. Hoje, somos duas professoras que buscam construir um olhar científico e político sobre as problemáticas que atravessam o dia a dia da creche, e isso tem provocado novas reflexões e desconfortos necessários.
Estamos organizando juntas uma ação que ocorrerá no dia 4 de novembro, como parte do programa Novembro Negro 2025, promovido pela Secretaria Municipal de Educação. Apesar de estarmos conduzindo todo o planejamento, os convites e a articulação das atividades sem o apoio da gestão, fomos surpreendidas quando uma das coordenadoras solicitou que, no documento oficial, constasse o nome “Equipe Gestora” como responsável. Essa situação nos fez refletir sobre o apagamento e a disputa de espaços simbólicos dentro das instituições, algo que Djamila Ribeiro (2019) chama de lugar de fala: o reconhecimento das vozes que historicamente foram silenciadas e que agora reivindicam legitimidade no espaço público e educacional.
Essa mesma coordenadora e uma outra, durante a apresentação do projeto, expressaram falas marcadamente racistas e de intolerância religiosa. Diante disso, senti-me sem reação imediata, ainda tateando os limites entre o posicionamento político e o enfrentamento pedagógico, pois compreendo que estou em um processo de inserção nessa temática dentro do CMEI. No entanto, como lembra Conceição Evaristo (2003), “nossas escrevivências não podem ser lidas como histórias de dor, mas de resistência”. Cada situação como essa reforça o compromisso de continuar escrevendo, formando e resistindo a partir do chão da escola.
Durante o planejamento da ação, outro episódio nos atravessou profundamente: o filho de Marcela, aluno do segundo ano do ensino fundamental, chegou até nós contando que foi chamado de “preto” de forma ofensiva. Ele dizia, em prantos, que iria “descontar” batendo no colega. Esse relato evidencia o quanto o racismo já está naturalizado nas infâncias e o quanto é urgente abordarmos o tema desde a educação infantil. É nesse espaço, como nos lembra Nilma Lino Gomes (2017), que se formam as primeiras percepções de si e do outro, e por isso a escola precisa ser um território de identidade, pertencimento e acolhimento.
Nosso projeto para o Novembro Negro busca exatamente isso: ampliar o diálogo entre escola e comunidade. Convidamos uma empreendedora negra para conversar com as mulheres da comunidade sobre empreendedorismo e autonomia financeira, o Colegiado de Enfermagem para tratar da saúde da população negra, e uma professora mestre premiada nacionalmente, cujo trabalho aborda as literaturas e infâncias negras na educação do campo. Cada presença é pensada como um gesto político e pedagógico de valorização das vozes negras que constroem saberes em múltiplos espaços.
Apesar de todo o entusiasmo, enfrentamos resistência da equipe gestora quanto à participação conjunta de pais e alunos na ação formativa. A justificativa foi de que isso “dispersaria a atenção dos responsáveis” e “poderia ser um desrespeito aos convidados”. Tal posicionamento revela como ainda há uma compreensão limitada sobre o caráter formativo e comunitário das ações antirracistas. Como define a Lei 10.639/2003, alterada pela Lei 11.645/2008, o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena é obrigatório em todas as escolas, não uma escolha ou preferência da gestão. A Resolução CNE/CP nº 01/2004 e o Parecer CNE/CP nº 03/2004 reforçam que essas práticas devem permear todo o currículo, incluindo o diálogo com as famílias e a comunidade.
A experiência vivida nesta Semana das Crianças e nas articulações para o Novembro Negro reafirma que a pesquisa-formação e o trabalho pedagógico antirracista não se separam. Ambos são feitos de travessias, enfrentamentos e reconstruções. No chão do CMEI, entre risadas infantis e resistências adultas, seguimos reinventando possibilidades de uma educação que, como diz bell hooks (2013), seja “um ato de liberdade”.