Peço licença para fazer um desabafo sobre um episódio que ocorreu está semana e dizer que a escola, tantas vezes vista como espaço de igualdade, também carrega em seus corredores as marcas das relações de poder que atravessam a sociedade. O que acontece fora de seus muros se infiltra em suas salas, nos olhares, nas escolhas, na atenção doada e até nos silêncios.
Há dores que são acolhidas com mais ternura, lágrimas que recebem mais espaço, sentimentos que encontram mais escuta. Mas há outras dores que parecem sempre caber em segundo plano, como se não fossem legítimas, como se não merecessem tal cuidado. E, quase sempre, esse “outro plano” é ocupado por corpos de pele mais escura.
O racismo estrutural também se manifesta assim: não apenas em palavras duras ou atos explícitos, mas naquilo que se repete de forma sutil, no modo como uns têm seus sofrimentos reconhecidos e validados e outros são constantemente invisibilizados. É nessa naturalização das diferenças de tratamento que mora a violência silenciosa, porém persistente.
Como aponta Florestan Fernandes, “o racismo não é apenas uma atitude individual, mas uma estrutura social que atravessa as instituições e define quem ocupa os espaços de poder e visibilidade” (FERNANDES, 1976, p. 27). Essa reflexão dialoga diretamente com a formação docente e a construção de identidades na escola. Precisamos questionar: quais vozes estamos acostumados a escutar? Quais histórias escolhemos legitimar? Quem pode ocupar o centro e quem é empurrado para a margem? Isso vale para os educadores de uma instituição chamada escola.
Se queremos construir uma educação verdadeiramente antirracista, precisamos aprender a enxergar além da superfície. Precisamos reconhecer que, muitas vezes, o que parece apenas cuidado ou empatia pode, na verdade, ser privilégio. E que quando a escola legitima uns e silencia outros, ela deixa de ser espaço de equidade para se tornar reflexo das injustiças que juramos combater.
Referência:
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ática, 1976.
Nenhum comentário:
Postar um comentário