Muitas vezes, quando falamos em diversidade na literatura infantil, temos a ideia de que “basta” escolher um livro que tenha uma personagem negra. Mas será que isso é suficiente? A verdade é que não. Enquanto educadores, precisamos ter muito cuidado ao selecionar as leituras que levaremos para a sala de aula, porque nem todo livro que coloca uma criança negra como protagonista traz, de fato, sua representatividade.
Representatividade não é apenas estar presente na narrativa do livro escolhido. Representatividade é estar ali de forma digna, positiva, potente, sem cair em estereótipos ou reforçar padrões que historicamente foram usados para inferiorizar pessoas negras.
Essa reflexão, inclusive, me atravessou de forma ainda mais profunda, quando assisti a um vídeo do professor Allan no Instagram, no qual ele problematizava justamente obras como O Cabelo de Lelê, Menina Bonita do Laço de Fita, entre outros. Esses livros, apesar de muito difundidos nas escolas, ainda carregam elementos estereotipados. No caso do segundo, por exemplo, a beleza da menina negra é narrada a partir do olhar do outro, não de sua própria subjetividade, o que reforça um imaginário de exotização, até porque dialoga com um coelho.
Essa questão toca também no próprio nome deste blog: Leituras de Lelê. O título surgiu a partir de uma situação vivida na escola, quando a proposta inicial era comemorar o Dia da Consciência Negra (20 de novembro) como “Dia do Cabelo Maluco”. Diante desse equívoco, O Cabelo de Lelê foi a única alternativa encontrada para seguir tratando do tema da identidade e dos cabelos. Mas reconheço que, ainda assim, a obra pode trazer armadilhas estereotipadas que precisamos discutir criticamente.
Outro exemplo muito claro de literatura que carrega racismo é a de Monteiro Lobato. Sua produção, especialmente em livros como os do Sítio do Pica-Pau Amarelo, expressa o racismo de sua época e cristaliza estigmas em personagens como Tia Nastácia. Embora algumas edições tenham sido reescritas ou suavizadas, ainda circulam versões que mantêm os traços originais, expondo crianças a narrativas abertamente racistas. Esse é um caso emblemático de como a literatura, mesmo quando considerada “clássica”, pode reforçar preconceitos e precisa ser lida com muito cuidado.
Portanto, não basta termos personagens negros presentes nas histórias. O que precisamos é de narrativas que construam representações afirmativas, múltiplas e potentes, que permitam que crianças negras se vejam como protagonistas em diferentes papéis: inventores, heróis, cientistas, reis e rainhas, artistas, sujeitos de possibilidades infinitas.
Se nosso compromisso é com uma educação antirracista, cabe a nós educadores olhar criticamente para os livros que escolhemos. Precisamos nos perguntar: essa leitura contribui para fortalecer a identidade e a autoestima das crianças, ou apenas reforça estigmas do passado? Nem toda presença é representatividade. E cada história lida em sala de aula deve ser uma oportunidade de construção de orgulho, dignidade e potência.
Sugestões de livros com representatividade afirmativa
Amoras (Emicida)
O mundo no Black Power de Tayó (Kiusam de Oliveira)
Sulwe (Lupita Nyong’o)
Omo-Oba: Histórias de princesas (Kiusam de Oliveira)
Betina (Nilma Lino Gomes)
As tranças de Bintou (Sylviane A. Diouf)
Essas obras apresentam personagens negros em narrativas potentes, que fogem dos estereótipos e fortalecem a identidade e a autoestima de nossas crianças.
Segue o vídeo inspiração desta postagem
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